Olhar com cuidado para quem cuida

Pesquisa na área de Enfermagem revela categoria vocacionada e desafios rumo à satisfação no trabalho
A professora Ana Cláudia de Sousa Costa, do Curso de Enfermagem de Poços de Caldas, coordenou a pesquisa, ao longo de 2021 | Foto: Fernanda Garcia
A professora Ana Cláudia de Sousa Costa, do Curso de Enfermagem de Poços de Caldas, coordenou a pesquisa, ao longo de 2021 | Foto: Fernanda Garcia

Para quem vê o mundo pelas lentes da ciência, todo acontecimento proporciona aprendizados. A pandemia, por exemplo, ampliou o entendimento de que a promoção da saúde pública passa pela formação de uma rede multiprofissional, capaz de integrar especialidades variadas no ato de cuidar. Neste contexto extremado, anseios e percepções de enfermeiras e enfermeiros no dia a dia tornaram-se objetos de uma pesquisa desenvolvida na PUC Minas Poços de Caldas.

Ao longo de 2021, um projeto coordenado pela professora Ana Cláudia de Sousa Costa, do Curso de Enfermagem do Campus, buscou entender como os profissionais da área avaliam o ambiente de prática profissional, satisfação no trabalho e clima de segurança. Variáveis como essas, que impactam fortemente a categoria, têm sido investigadas pela docente ao longo de toda a sua trajetória acadêmica. Afinal, defende ela: “A Enfermagem é ciência, não é só técnica.”

O trabalho consistiu, primeiramente, na elaboração de um questionário capaz de esmiuçar a avaliação de enfermeiros atuantes no que diz respeito às três variáveis consideradas na pesquisa. Os passos seguintes foram a divulgação do formulário e o recrutamento de participantes, processos realizados por meio das plataformas digitais, uma vez que o cenário pandêmico inviabilizou abordagens presenciais. Apesar da dificuldade de engajamento no modelo virtual, cerca de 160 sujeitos com perfis diversos responderam integralmente a pesquisa. Dentre eles, 130 se adequaram ao recorte metodológico e seguiram para análise.

Concluída a coleta de dados, passou-se à interpretação dos resultados e elaboração de trabalhos científicos, que começam a ser apresentados agora em eventos acadêmicos. Um artigo já foi aceito, por exemplo, na Conferência Internacional de Enfermagem, que ocorrerá no mês de setembro em Londres, no Reino Unido.

Vocação versus satisfação

O projeto contou com a participação das alunas de Enfermagem Beatriz de Cassia Pinheiro Goulart e Karine de Cássia Cavalari: oportunidade de amadurecimento profissional | Foto: Fernanda Garcia

Os dados foram interpretados a partir de dois recortes: segundo o tipo de hospital em que atuam os participantes (público, privado ou misto) e o turno em que trabalham (diurno ou noturno). Um requisito para consideração das respostas é o tempo mínimo de três meses de vínculo a uma instituição de saúde. Dado o período de realização da pesquisa, considerou-se ainda que a percepção dos profissionais reflete diretamente o contexto da pandemia.

Conforme relata a professora Ana, no que diz respeito ao ambiente de prática, a avaliação é positiva em todos os grupos, com pequenas divergências entre eles. Esta variável diz respeito a aspectos como a autonomia dos enfermeiros e as relações estabelecidas com outros profissionais. A percepção dos participantes também é favorável quanto ao clima de segurança, que reflete condições técnicas oferecidas.
O ponto crítico está na satisfação no trabalho. Há divergências entre os grupos e a percepção tende a ser menos favorável para alguns deles, como os profissionais do turno noturno e os de instituições públicas, quando comparados aos demais. Segundo a professora Ana, os principais motivos estão ligados à remuneração, escassez de ciclos de promoção, estagnação na carreira e baixa oferta de benefícios. Este cenário se relaciona com uma demanda histórica da categoria: a luta por um piso salarial justo, capaz de transformar a realidade de quem se submete a jornadas duplas ou triplas para garantir sua renda.

Apesar de todas as demandas urgentes, a pesquisa revela um traço incontestável: o amor pela profissão. Mesmo entre os grupos que demonstram maior insatisfação no trabalho, é quase unânime a sensação de orgulho e pertencimento à carreira de Enfermagem. A vocação se nota não só no mercado, mas já nas salas de aula.

Primeiros passos na pesquisa

Professora Heloísa Helena Nímia: “A Enfermagem exerce um papel fundamental na dimensão do cuidar” | Foto: Fernanda Garcia

Contemplada no Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIP/PUC Minas), a pesquisa contou com a participação de duas alunas de graduação: como bolsista, Beatriz de Cassia Pinheiro Goulart, que cursa o quinto período de Enfermagem no Campus; e como voluntária, Karine de Cássia Cavalari, agora no sétimo período do Curso. Ambas ingressaram no projeto por demonstrarem interesse em atuar com pesquisa nas aulas da professora Ana. Para elas, o trio formou mais que uma parceria, construindo uma verdadeira amizade.

Beatriz destaca a oportunidade de amadurecimento profissional a partir da compreensão do método científico. A lida com os insights oferecidos por quem já está no mercado reforçou sua paixão pela profissão, alimentada desde o início da adolescência, e a motivou para mostrar à categoria que a Enfermagem tem um vasto campo a ser explorado por pesquisadores. “Aumentou a minha sede de, no futuro, como profissional, estar totalmente ligada à ciência e à pesquisa”, ressalta.

Karine, por sua vez, conta que já ingressou na Universidade pensando em uma pós-graduação. Vocacionada para o cuidado com os pacientes, a aluna avalia ter um leque amplo de especializações, residências e programas de mestrado e doutorado na área. No projeto, encontrou espaço para escutar, opinar e aprimorar habilidades. “Melhorou o meu dia a dia tanto para fazer os trabalhos acadêmicos quanto para desenvolver o senso crítico”, destaca.

No entendimento da coordenadora do Curso de Enfermagem da PUC Minas Poços de Caldas, professora Heloísa Helena Nímia, a pesquisa dialoga com aspectos importantes da profissão. Ela explica: “A Enfermagem exerce um papel fundamental na dimensão do cuidar. Os profissionais enfermeiros, com pleno domínio, conhecimento e vinculação com os pacientes, têm maior segurança no trabalho. Isso resulta no seu empoderamento, na capacidade de tomada de decisão, que deve ser trabalhada desde a graduação.”

As alunas Beatriz e Karine seguem, em 2022, explorando outros temas em um novo projeto de iniciação científica, no qual ambas foram contempladas com bolsas. A orientação segue a cargo da professora Ana, que desenvolveu ainda outro projeto, voltado à continuidade da pesquisa realizada em 2021. A docente sustenta firmemente o propósito de demonstrar que a ciência pode contribuir para promover melhorias. “Se estou satisfeita profissionalmente, a minha assistência ao paciente terá qualidade e segurança. A essência da nossa profissão é o cuidar e a gente nunca pode esquecer disso”, explica.

PARA SABER MAIS

O aluno interessado em ser atendido pelo Tecendo o Aprender deve entrar em contato com o projeto por meio do e-mail lapepucminas@gmail.com, ou através da página do Instagram do Lape em @lapepucminas e solicitar o atendimento.

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